Chás Andorinha | Diário de viagem – uma visita a Anxi 安溪
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Diário de viagem – uma visita a Anxi 安溪

Anxi 安溪, dia 21 de Fevereiro de 2017

Nestes dias estou de visita à província de Fujian, na China. Vim ver as maravilhas naturais e culturais desta região, e tenho especial curiosidade em descobrir in loco os famosos chás que aqui se produzem. Acordei em Xiamen 厦门, também conhecida por Amoy, e após pequeno-almoço apanho um comboio rápido para Quanzhou 泉州, cerca de 90 quilómetros a Nordeste, pela linha costeira do Estreito de Taiwan. Quanzhou é uma cidade maior que Xiamen, apesar de hoje em dia ser bastante menos internacional. Durante os dias em que lá estive não me cruzei com um único ocidental. Depois de fazer o check-in e deixar bagagens no hotel, apresso-me a apanhar um pequeno autocarro para Anxi, a uns 70 quilómetros para o interior, e conhecida por Zhōngguó chá dōu 中国茶都 – a Capital Chinesa do Chá.

Às portas do mercado do chá em Anxi 安溪

Os chineses chamam de “aldeia” a Anxi, terra que tem prédios de 20 andares e aproximadamente a mesma população que Viseu. Mas na verdade, e não desfazendo a sua importância, devo dizer que não considerei o mercado de chá de Anxi 安溪 na província de Fujian 福建mais impressionante do que os mercados que já havia visitado noutras ocasiões em Hangzhou杭州 na província de Zhejiang 浙江 ou em Kunming 昆明 na província de Yunnan 云南. No entanto, os chás são completamente diferentes em cada um destes locais. É interessantíssimo ver como pelo chá se conhece uma cultura transversal a toda a China; e pelo mesmo chá se conhecem as singularidades de cada região. Se em Zhejiang o chá Longjing 龙井茶 é o mais popular com as suas delicadas folhas verde-amareladas espalmadas e inteiras, e se no Yunnan o chá Pu’er 普洱茶 nos impressiona pela beleza dos enormes discos de chá prensados que continuam lentamente a fermentar e a escurecer, apurando os seus aromas com o passar dos anos, no mercado do chá em Anxi destaca-se a predominância de um chá Oolong 乌龙茶 esverdeado e muito especial chamado Tieguan Yin 铁观音.

Separando as folhas dos caules – Tieguan Yin 铁观音

É difícil contar em palavras a maravilha que são os cheiros num mercado de chá, sobretudo neste em particular. Os agricultores trazem enormes sacas de chá Oolong ainda por escolher. Sentam-se em cadeiras desdobráveis ou no chão a separar as folhas verdes e encaracoladas dos seus caules acastanhados, e a colocá-las em sacas novas para vender a peso. A fragrância que se solta naquele lugar é riquíssima: por vezes floral, aqui lembra frutas em passa, ali cheira a relva cortada, acolá descobre-se a maresia, e mais além a sensação de terra quente molhada pela chuva… Some-se a isto o típico frenesim de qualquer mercado, com a agravante que eu era um foco de atenção por causa de meu aspecto estrangeiro, quase extraterrestre.

Para além do chá Oolong Tieguan Yin, o mercado de Anxi também comercializa outros Oolongs da região como o chá Da Hong Pao 大紅袍茶 (mais oxidado e acastanhado), chás brancos 白茶 e chás pretos (que os Chineses chamam de chá encarnado 紅茶) de muito boa qualidade. Fujian é uma das regiões por excelência para o cultivo e processamento do chá, e há tanta variedade que facilmente perdemos o fio à meada, juntamente com o fio do tempo que passa sem darmos conta.

Loja de chá em Anxi 安溪

Nestes dias, uma moda recente na China é o chamado Chén Pí Chá 陈皮茶, que consiste numa pequena casca de tangerina desidratada e recheada com chá branco 白茶 ou com chá Pu’er 普洱茶. A tangerina cheia de chá vai direita para o bule e dá as estes chás um aroma cítrico suave e levemente adocicado. Pude encontrar esta iguaria nalgumas lojas, e trouxe algumas para casa. Esta ligação entre os citrinos e o chá é antiga e muito popular na cultura inglesa por exemplo através do tradicional Earl Grey, que consiste em chá – normalmente preto, mas não necessariamente – aromatizado com os óleos essenciais da bergamota ou com a flor da laranjeira. Apesar de reconhecer que tais chás aromatizados podem ser muito agradáveis, eu tendo a preferir a imensidão de aromas que um bom chá puro me pode oferecer por si só. Mas gosto sempre de provar todos os produtos que sejam bem cultivados e processados, que nos transmitam autenticidade e bons sabores.

Após cheirar, tocar e provar dezenas de chás, depois de contactar vários produtores e aprender tanto acerca dos seus processos muito característicos, fiz algumas compras e trouxe amostras para provar mais tarde com a minha querida mulher e sócia, que desta vez ficou em Portugal.

Casa de chá na montanha, perto de Quanzhou 泉州

Voltei a Quanzhou com o cair da noite e fui jantar à zona mais antiga da cidade. No caminho é inevitável reparar nas inúmeras lojas de roupa, tecnologia, jóias e decoração que cobrem ambas as margens das ruas. Lojas bem apresentadas e de marcas boas, que por momentos nos iludem que estamos em Paris ou em Londres até percebermos que nesta terra ninguém fala outra língua para além do Mandarim ou os demais dialectos chineses. Adado momento, decidi entrar numa livraria à procura do “Clássico do Chá” 茶经 (chá jīng) de Lu Yu 陆羽. Não havia, mas encontrei outros livros que me interessaram, desde obras sobre chá e pintura a livros belissimamente ilustrados para os meus queridos filhos. Somo os preços de capa e preparo-me para pagar 175 RMB à saída (cerca de 23 EUR), onde, para meu espanto, a senhora que me atendia pegou nos livros e os pesou numa balança, cobrando-me afinal apenas 58 RMB (uns 8 EUR). Nunca antes eu tinha pago por literatura a peso! E tão boa, e tão barata… confesso que desejei ter mais uma mala de viagem para encher daqueles livros, e mais uma estante em casa para os acolher condignamente. À luz da lua e dos candeeiros, Quanzhou 泉州 parece ser uma cidade encantadora. E é com esse pensamento que volto para o hotel e descanso, com vontade de a poder ver melhor no dia seguinte, à luz do sol e acompanhado de um bom chá.

Para além dos Chás Andorinha que já pode encontrar à venda neste site, esperamos continuar a poder trazer-lhe os chás mais surpreendentes que vamos tendo a oportunidade de conhecer.